PSICOGRAFIA DE CAZUZA POR CHICO XAVIER



Um Pouco de Mim nas Sedas do Além
“5. Pensava que após ressacas eu era sempre perdoado por
todos os anjos do amor. Tinha sempre uma noção de ser feliz,
aqui esta felicidade é muito mais explorável. Eu já sentia algum ar
novo e certas paisagens dela, nada volta ao seu estado natural
como eu pensava apenas não sou muito como disseram num certo
livro sobre minha insignificante pessoa idealizada. Inventarão o meu
show. Não sei como te oferecer certezas disso, nós ainda vemos
tudo daqui. Estou numa sociedade socialista democrática perfeita.
   Eu nunca quis saber destas coisas de eternidade, porque para
mim era coisa de papa. Então arduamente e com certa teimosia
eu procurei algum outro mais legal, foi difícil, pedi que encerrasse
o livro anterior e não divulgasse nada ainda por ordens superiores,
e achei um que já foi muito pirado na vida desde a infância, uma
piração mais controlada, claro, mas que tivesse mais a ver com
minhas intenções de volúpia de escola em palcos de doutor.
   Todos já deviam saber que eu não pertenceria a federações,
editoras ou onde existir lucros financeiros em meu nome, excluam-me
disto; onde tiver isso com certeza não será eu. Não quero
ser o mesmo babaca e nunca irei mais fazer parte disso, baby!
Essa é minha vida atual, sempre foi e realmente não podemos
enganar o que vem da natureza. Aqui não tem jogo político. Não
9. adianta inventar que sempre fui o garotinho exemplar da mamãe
depois de aloprar no pó durante minha vida quase toda. Mas,
graças que eu achei um que parecia me aceitar, foi realmente
difícil achar algum que tivesse a ver, mas quer mesmo saber?
Dane-se sobre isto! Eu os apoio e ele entende é muito bem da
minha música, entende muito bem sobre o mesmo amor que
conhecemos nos tempos dos palcos. Eu atacava quem estava
manso e agora entendo que pretendo consertar algumas coisas
dentro de mim, deixar de ser tão bêbado em certos momentos,
estarrado, moleque, preciso controlar mais os meus palavrões. Aqui
temos escolha de sermos mais sérios, e eu escolhi ser um pouco
mais sério mesmo, responsável. Tudo começou alguns segundos
antes da minha morte, apesar de debilitado, eu me sentia muito
vivo apesar de me encontrar sem forças. Eu me sentia apagando
   3. como luzes do palco quando não se tinham mais platéias,
acabou, amanheceu! Vamos embora! Eu ainda insistindo com os
meus cigarros nas mãos olhando cores cinzas para onde quer que
os meus olhos olhassem. De repente, o meu corpo franzino de
alguma forma sabia que naquele dia estava mesmo para morrer e
que de alguma forma sabemos quando acontecerá, é bastante
assustador. Eu só aguardava tudo escurecer para depois poder
esquecer de mim. Eu estava ansioso com o corpo dolorido. Eu já
havia atravessado e nem sabia. Eu já havia lido que não doeria e
isso me ajudou bastante a suportar. De fato eu já procurava pelo
momento mais esperado da vida, mas será que já havia
acontecido isso por muito tempo e eu não sabia? Impressionante,
não senti passagens, mas minha visão não foi interrompida em
nenhum segundo. Todo o ritmo tinha o seu fim, doses mais fortes
pareciam que não. Era assim que eu me sentia. Percebi que o
universo era bem maior do que tudo que eu já havia conhecido
com várias atmosferas umas sobre outras. Não sei te explicar, de
alguma forma sabemos o momento exato quando deixamos o
físico, não sei como foi feita essa separação, 8. não flagrei esse
momento como eu flagrava doidão, mas bem atento sobre curvas
de quem adormecia comigo num motel barato de Copacabana;
realmente não senti isso acontecer. E o fato de saber que minha
visão não cessou tornou-se muito maior do que saber de fato
sobre polêmicas do fim, mas depois que atravessei percebi que
esta questão era a mais pueril de todas, é pífia e é babaca, ao
mesmo tempo para mim foi do caral... Saber que eu ainda me
mexia. Mas alguma dúvida ainda pairava toda minha mente.
Realmente havia partido? Era estranho ou um sonho? Pois minha
moleza era muito forte e tonturas me levavam ao delírio constante.
   Eu tinha fortes disenterias, dores de barriga, forte abstinência. É
inevitável viver o nosso drama, conhecer-nos detalhe a detalhe.
Foi mais do que dizer coisas insanas no ouvido de um padre no
tempo de escola. No mundo realmente eu me envolvi com tudo
que fizesse parte da música, rock e poesia (mas eu era bom de
letras), mas sabia que não havia nascido 3. para o drama.
Fizeram-me até o garotinho do samba. Aproveitei tudo para
aloprar, cheiração e muita putar... Com os mais luxuosos
segredos. Que bom para mim amor. Ledo engano. E daí se eu
estava com HIV? Não vou dizer que não me arrependi, pois me
arrependi mesmo. Foi muito triste essa fase da minha vida.
 Ninguém gosta. Foi no que mais sofri , foi quando soube da
notícia, quando eu pensei na conseqüência, quando eu pensei em
todo o meu passado e na minha mais inocente felicidade de
embriaguez, quando pensei nos meus sorrisos ingênuos. Se eu
pudesse fazer diferente eu teria feito e não teria pego essa porra,
teria me cuidado muito mais e teria morrido pelo menos chique
como uma dama velha ao som da vida em bandos e com uma
bela garrafa de vodka ao meu lado. Esses eram os pensamentos
juntos aos desgostos que ao mesmo tempo eu sentia quando
ainda deitado antes de partir febrilmente. Mas isso não feriu
completamente o meu ótimo senso de humor. Não fui recebido por
ninguém. Seria extremamente infantil que religiões fossem resolver
transcendentes questões deste infinito. Agora que me fiz curioso,
4. sendo assim, quantas existências será que eu tive? Quantos
atos de barbaridades será que cometi? Quantos séculos de
conhecimento será que eu tenho?De serviços? De triunfos?
Quantos sopros renovadores será que eu suportei? No fundo é
muito difícil entender dentro do nosso íntimo sabermos que
continuamos. Você pode até estudar toda teoria, ser “expert” no
assunto, nada é mais forte do que você viver essa situação. Senti
falta foi da minha multidão, das baratas dos palcos apertados, da
minha sintonia com o público, do calor humano, dos meus pais,
da loura que me deu em segredo um par de rosas no almoço,
dos amigos queridos da infância do amor e ódio. Eu queria
mesmo era poder ficar pasmo e maravilhado com tudo que estava
acontecendo comigo. Foi assim que eu percebi que eu não tinha
nada de astro, tudo fazia parte da alegria somente para vaidades.
   E essa realidade onde estou é muito diferente. Permaneço por
aqui como um mero espectador na última cadeira do teatro divino.
   Estou bem, estou bem, estudando bastante (finalmente peguei
gosto por algum estudo) e indo para recomendadas palestras
continuamente, hoje é o que importa. Nestas palestras sinto-me
  2. tomando o mesmo soro. Existe muito mais que eu poderia
dizer, mas através de outros já foi e será melhor dito, não é
minha tarefa. Mas garanto não foi nada fácil o meu inferno astral
após o desencarne. Hoje só estou aqui para somar e ajudar na
sua fé. E eu pensei que ser novo era viver sempre numa fria.
Nessa idade só queremos uma transa boa. O olhar eu traduzia
ser o passaporte para o sexo casual. O sorriso a confirmação
indébita dentro da dose do meu desprentecioso uisk de Leblon. Eu
simplesmente fazia de tudo, até fingia ser príncipe, na verdade eu
estava mais para ser, se continuasse por aí, mais algum
incansável bobo da corte. ‘Dias sim, dias não.’ Ou ‘Segredos de
liquidificador.’ Ou ‘Partidos’. Ou ‘Burguesia’. Não importa mais.
   Desculpe pelas minhas interpretações doidas e pelos meus
estresses nervosos. Desculpe de paixão a todos. Eu não venceria
minha provação por isso de repente fui retirado abruptamente da
vida, mas também amenizei muito mais dores da punição e sou
muito grato por tudo que eu fiz. Que Deus os proteja hoje e
sempre minha querida até então última humanidade, pais, todos os
meus fãs e amigos. Só queria que soubessem que agora
encontro-me mais completo, feliz, aprendendo novas boemias, o
de sempre, reaprendendo, cantando novas músicas, nada de
drogas, nada de egos. Beijos!”
Preferiu não se identificar, 1996.
Psicografia


1 comentários:

E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE...

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